Fagner Dalbem: Diálogo entre Moral Cristã e Sociedade Contemporânea

 

A possibilidade de diálogo entre a moral cristã e a sociedade contemporânea.

 

            Hoje, com o conhecimento cada vez maior da diversidade, a sensação é de que não exista uma moral universal. Principalmente com a cultura defensora de uma liberdade sem princípios. O que impede que tenhamos uma anarquia moral agora e no futuro é realmente o fundamento antropológico que dita o estilo de vida do ser humano: viver em conjunto e defender a própria vida. Esse fundamento, ou até, essa necessidade, fez com que os homens criassem acordos entre si para a própria sobrevivência. A moral Cristã deve então lançar mão dessa essência ética como chave de diálogo com a sociedade.

            A ideia de que a humanidade é essencialmente ética surgiu com a concepção do homem denominada “clássica” (séc. VI a.C. – VI d.C.). Esta foi herdada por Roma, que acrescentou elementos especificamente romanos, constituindo a cultura Greco-romana: a grande fornecedora de ideias e valores para a cultura ocidental. É daqui que surge a imagem do homem como animal que fala e discorre (zoon logikón), e animal político (zoon politikón): “só enquanto dotado de logos o homem é capaz de entrar em relação consensual com seu semelhante e instituir a comunidade política.”[1] Também a imagem do homem herda bastante do homem grego que adimira a ordem e a beleza do universo. Sócrates introduz no campo das ideias antropológicas a ideia da personalidade moral sobre a qual irá assentar todo o edifício da Ética e do Direito em nossa civilização.[2] Segundo Platão e Aristóteles, é da admiração que nasce a filosofia, e com ela o estilo de vida chamado de “teorético”. Outra descoberta é a correspondência da ordem do universo (natureza ou physis) e a ordem da cidade (polis) regida por leis justas. “Essa será uma das fontes da ideia grega de uma ciência do agir humano (ética)”[3].

            Com essa concepção e com o movimento cultural iluminista, a ética vai ganhar uma grande autonomia. Depois de muito tempo marcada pela autoridade da igreja, justifica agora as crenças morais à razão (Kant) e ao sentimento (Hume). Isso porque a moral é vista como algo evidente, o crêr e o não crer em Deus tornou-se algo sem importância no plano moral:

Essa ideia de autonomia da ética tinha um fim eliminar o arbitrário da ideologia religiosa e fazer justiça à liberdade, à dignidade e à responsabilidade moral do homem. O espírito humano tomava o lugar de Deus, e o sentido inato do dever substituía a obediência à lei divina.[4]

 

            Uma das categorias centrais da busca pela “verdadeira humanidade” é a da autonomia, mas ser autônomo não significa estar em contradição com as necessidades de normas, não se identifica com uma busca de liberdade absoluta, ela aponta para o papel da subjetividade do agir moral. É necessário um conhecimento maior nesse sentido.  Existe uma ideia errada de “liberdade” e de “autonomia”. A sociedade pensa que vive algo que não condiz com o real. Por exemplo: as pessoas são livres para escolher um trabalho?Os jovens estão realmente fazendo o curso que querem? Somos tão livres assim?

            A moral cristã tem muito a contribuir com o crescimento humano, pois o cristianismo não é e não pode ser desvinculado da ética, pelo contrário, buscam integração e relação entre si. Uma cristologia sem ética pode ser abstrata, e uma ética sem cristologia poderia ser uma mera estrutura de valores sem alma, vazia. A ação cristã não pode ser reduzida, limitada às práticas religiosas. A moral cristã apresenta-se como um grande caminho para o diálogo com a sociedade contemporânea e uma força para a vitalidade da fé no mundo.

 

 

FACULDADE JESUÍTA DE FILOSOFIA E TEOLOGIA

Departamento de Teologia

Ética Teológica Fundamnetal 2011/2

Professor: Élio Estanislau Gasda

Aluno: Fagner Dalbem Mapa

Data: 08/08/2011



[1] VAZ, Henrique C. de Lima. Antropologia Filosófica. Vol I. 10 ed. São Paulo: Loyola, 2010. p.20

[2] Cf. VAZ. Antropologia Filosófica. p.29

[3] VAZ. Antropologia Filosófica. p.21

[4] LACOSTE, Jean Yves. Ética. In: _____. Dicionário Crítico de Teologia. São Paulo: Paulinas: Edições Loyola, 2004. p. 675