Fagner Dalbem: O estrangeiro e a aliança com Deus

 

Viver como estrangeiro: uma proposta de aliança[1]

Há no ser humano uma forte tendência de possuir e querer ser tudo. Todos nós cobiçamos uma grandeza, uma vontade de ser um "super-herói". Quando criança é uma vontade "inocente", um desejo de sair voando e salvar o mundo, mas infelizmente não para por aí. O teologo Wénin trabalha um pouco sobre esse assunto, relacionando-o ao medo que o ser humano tem de não conseguir suprir suas necessidades, chamado por ele de "medo da carência". Wénin oferece como solução, um caminho espiritual. A fonte está na aliança entre Deus e o seu povo. 

           No primeiro livro da Bíblia vemos que:  “A humanidade recebeu tudo. Mas seu medo da carência, seu medo de não ser tudo, a conduz a querer possuir tudo (Gn 3,1-5). Pretendendo assim possuir tudo, espalha a morte. Sobre a natureza, sobre os animais e sobre ela mesma, semeia violência e morte.”[2] Em oposição a essa atitude, Deus oferece aliança a um povo: Israel. Sendo que essa eleição, não tem nada a ver com a sua etnia, mas com a ética. O eleito é aquele que escolhe a lei de Deus que o chama à aliança. Esse chamado faz com que o eleito escape de outra lei: a lei da cobiça. Ela leva o homem à inveja, às relações de posse, de dominação e de violência. Quem a segue faz do outro uma coisa a se tomar, um meio a ser utilizado e um rival a eliminar. “Foi a esta lei que Abraão, e depois Israel, foram convidados a arrancar de si para lhe opor outra lógica que está no coração da lei de Deus: a da justiça, da solidariedade, do reconhecimento, da partilha.”[3]
            Abraão deixou tudo o que possuía e foi em direção àquilo que não iria ter, pois a terra prometida é propriedade de Deus, não do povo. A característica do povo eleito, portanto, é ser estrangeiro. Opção que se opõe à violência, à cobiça, à destruição. Essa opção faz com que ofereçamos ao outro um espaço, pois é relação de aliança com Deus e com os homens, parceiros e irmãos. “Ora, a aliança é o único modo de vida capaz de derrotar a cobiça, pois a cada um assegura um lugar de sujeito, de parceiro livre.”[4]
            Mesmo em sua terra, é fundamental que o povo da aliança permaneça como migrante. (cf Lv 25,23). “Em poucas palavras, na terra de Canaã, Israel não está em casa. É como um residente acolhido por um proprietário que lhe dá o direito de asilo.”[5] A relação entre migrantes é de parceria e comunhão, pois ambos estão na mesma situação e sabem que um precisa ajudar ao outro. Já a atitude de um proprietário é de defender a sua posse, por isso o outro representa uma ameaça. Hoje, por exemplo, vivemos um neoliberalismo bem acentuado. Nossas relações e nosso modo de vida estão alicerçados na filosofia do sistema neoliberal. É um ciclo vicioso, efeito e causa de um modo de ser dominador e “selvagem”: “Eu domino para não ser dominado”. E o que alimenta o sistema é a posse.
            Todo ser humano é chamado a subtrair de si o avanço da cobiça e alimentar a partilha, a justiça, a aliança, cultivar a característica de estrangeiro, de migrante. Essa atitude espiritual faz com que a pessoa não faça distinção e reconheça a todos como parceiros e irmãos. Somos todos estrangeiros com os estrangeiros, migrantes com os migrantes.
 
Fagner CSsR
 
[1] Baseado em. WÉNIN, André. Viver como estrangeiro, ou a vocação do eleito. In: ______. O homem bíblico: leituras do Primeiro Testamento. São Paulo: Loyola, 2006. p.113-124. (Bíblica Loyola, 49).
[2] WÉNIN, O homem bíblico, p.37.
[3] WÉNIN, O homem bíblico, p.117
[4] WÉNIN, O homem bíblico, p.118
[5] WÉNIN, O homem bíblico, p.119